- É o fim de tudo - disse ele.
Mas como saber se é o fim, se nem se sabe o que é o fim? Como tentar salvar uma noite que você mesmo destruiu? Como lutar contra a água de um maremoto que anseia por acabar com sua vida se você nunca nem aprendeu a nadar na calma água da piscina? E pior de tudo: como conseguir deitar a cabeça no travesseiro de noite, sabendo que você mesmo foi a causa de um pesadelo que não se acaba quando acorda?
Eu não sabia a resposta para nada disso, mas sabia que tinha que fazer algo. Ele merecia mais que isso. Abri os olhos e encarei a escuridão da noite que ameaçava cair sobre a minha cabeça.
- Você - eu tentei me obrigar a falar, mas os soluços não acabavam nunca, deixando-me sem fôlego para continuar.
Depois de alguns minutos e de inúmeros suspiros, consegui me pronunciar.
- Eu não quero perder você. Perdoe-me – minha voz falhou.
- É incrível como só queremos aquilo que não podemos ter – respondeu ele. Ele ainda estava sentado encolhido, com o rosto nas mãos, assim, sua voz saiu abafada.
- Posso te abraçar?
Ele não respondeu, ou mesmo se mexeu.
- Sabe que o silêncio consente, não é?
Novamente não houve resposta. Então o abracei o mais forte que pude. Deixando as lágrimas encharcarem seu blazer lindo. Algo mais para estragar. Que mal isso faria? Era só uma roupa, comparada ao estrago que eu já havia feito, isso era absolutamente nada.
- Me desculpe. Desculpe me – entoava sem parar. – Eu nunca quis… Oh, me deculpe.
- Não é culpa sua. E nunca foi. É culpa da noite que teima em acabar – respondeu ele tanto aos meus lamentos quanto ao meu abraço. – Mas ela tem que acabar para outro dia começar. Acho que também não posso culpá-la. Talvez o tempo. Ele sim, certamente tem culpa. Anda rápido demais para que a gente consiga se adaptar.
- Não. É minha culpa. Eu sei disso.
- Espere. Deixe-me olhar em seus olhos só uma vez. – Ele obrigou meus olhos molhados e angustiados se levantarem e encontrarem os dele. – Agora nunca mais os esquecerei. Não esquecerei da casa branca com um lago na frente da parte sul dela, que é de vidro. Não esquecerei os meninos – nossos filhos – gritando e correndo dentro dela. Não esquecerei da beleza que eles herdaram da mãe, a mulher mais bonita que eu já conheci. Não esquecerei de nada, de sonho nenhum. Ficará na minha memória para sempre, como essa noite.
- O fim de tudo.
- É. Mas outro “tudo” começa amanhã.
- Sem você será apenas o nada.
- Nada material. Por isso o amor é abstrato. Acho que você pode chamar de “tudo do nada”.
- “Tudo do nada?” – perguntei incrédula.
- Sim. O amor é tudo.
- E o nada é a falta dele. É o amanhã.
- Exatamente.
- Bom, então será que eu posso ter o tudo do tudo por essa noite?
- Sim, só por essa noite. – Então ele ergueu o rosto para me beijar e assim ficamos, até a noite acabar.
The end of everything